• Carol Neris

A partida da Aurora


Aurora chegou aqui em casa de repente. Até hoje não sei como veio parar aqui. Mas veio num dia, depois outro e mais outro e foi ficando.

Comia, passava as tardes e voltava. As tardes viraram dias. Sem cerimônias aurora passou a morar a com gente. E como moradora recebeu o seu quartinho, seu espaço.

Era sensação da família. A cada nova vista a gente perguntava: já conhece aurora? Pois venha conhecê-la. Ela não dava trela pra todo mundo não. Sempre foi reservada.

Viveu com a gente por uns 10 anos. Chegou ainda jovem, enfrentou a menopausa e iniciou a velhice. No fim da vida ganhou uma casa nova, mais digna. Com decoração especial. Foi na casa nova que fechou os olhos e passou os últimos momentos mais sofridos.

Aurora foi especial. Teve um destino diferente. Não viveu a maioria das coisas que vivem os seus parentes. Viveu mais que todos os outros. Morreu como os outros não morrem.

Aurora era nossa galinha de estimação. Sim, minha família teve uma galinha como bicho de estimação a quem dávamos bom dia e com quem conversávamos.

Nos últimos dias aurora estava bem debilitada e sofreu um bocado sem conseguir se alimentar. Até os bichos sofrem nessa vida e eu me peguei orando pela galinha "Senhor, se for a hora da aurora que ela não sofra tanto". Depois da oração eu pensei "Mas e se o sofrimento for parte do deixar de ser? E se não tiver como diminuir ou deixar passar por ele?"

Talvez a maior a benção, em qualquer estágio da vida (de gente ou de bicho), é passar pelo sofrimento sabendo que somos amados e recebendo o conforto e cuidado necessários.

Aurora recebeu água e chá na seringa. Teve sombra, silêncio e uma casinha só dela pra descansar. O corpo de aurora já tinha destino certo: o campo santo do quintal da família. Quando partiu, foi cuidadosamente enrolado num lençol e teve flores no seu túmulo.

Meu Deus, Aurora teve mais dignidade no fim da vida que a maioria das pessoas.

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