• Carol Neris

Amizade no ponto


O ônibus faz parte da minha rotina, pra ir pro estágio, quando ia pra faculdade. Pra ir ao médico, ao centro da cidade. Já peguei vários e há coisas bem curiosas neles. Quando você pega o ônibus errado institivamente sabe que é o errado. Por quê? As pessoas são diferentes, tem outras caras, outras roupas, outros jeitos. A gente se acostuma com os rostos da nosso bairro.


A gente vai e volta de ônibus todos os dias. Quem tem sorte não passa muitas horas da vida dentro dele e acha sempre uma cadeira pra viajar sentado. Mas tem outra coisa curiosa sobre o busão. Acontece que ele não é só lugar de passagem. Também é lugar de encontro. É ponto cativo da rotina.


Toda manhã a linha 039 sai do terminal às 7h40 (Às vezes um pouco antes, às vezes um pouco depois – mesmo depois do advento dos aplicativos de mobilidade, acertar o horário do ônibus é uma ciência que nem todos dominam – mas o trabalhador tem que acertar, não dá pra chegar atrasado todo dia). Pois bem, às 7h40 estão quase sempre a mesmas pessoas na fila. Não são os “passageiros” são os cativos que fazem o mesmo trajeto 5 dias por dia semana, todos os meses do ano.


No terceiro ponto da rota sobem sempre quatro amigas, animadíssimas. Sexta-feira é sempre dia de maior empolgação. São falantes, risonhas. Foi com elas que eu aprendi que o nome da cobradora mais animada da linha é “Drika”. Uma trabalha no comércio no centro da cidade, outra trabalha em uma concessionária – descobri pela farda e pelo ponto em que desce, outra cuida de uma idosa e última trabalha na casa de uma família (ainda não descobri o cargo, ela é mais caladinha).


Toda segunda acompanho atenta o feedback do fim semana. A cuidadora dias atrás teve uma crise de dor dente, fez uma extração dolorosíssima. Sei em quem todas votaram, as que votaram, porque uma se recusou a sair de casa. A da concessionária tem um filho de 11 meses, “lindo!” – de acordo com a opinião da cuidadora que viu a foto no celular da amiga outro dia, eu não vi, confiei na opinião dela - “tá uma bolotinha, é a cara do pai”.


O que eu não sabia é que são elas amigas de ônibus. Se conheceram no ponto e ao longo dos anos fizeram do trajeto para o trabalho um momento de amizade. Permitiram se desarmar e abrir espaço para as pessoas que literalmente estavam ao lado, pra trocar ideia, compartilhar a vida e dar umas boas risadas.


Quanta gente bacana passa por nós repetidamente e a gente não nota, não puxa conversa, não oferece sequer um olhar, sorriso ou bom dia. Quantas oportunidades e amizades a gente perde no trajeto da vida porque tá cansada, com sono, de cara fechada ou distraída?

Sempre que essas quatro sobem no ônibus eu sinto essa cutucada dentro mim. Todo dia, às 7h45 elas me provocam algo de bom. Qualquer dia ainda crio coragem e antes de descer do ônibus pergunto se também não querem ser minhas amigas.

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